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A palavra de Patañjali

Palavra é aquilo que, quando pronunciado, traz a compreensão do significado. Para os gramáticos, a palavra real, verdadeira é sphota – aquilo por meio do qual se manifesta o significado. A palavra é recebida pelos ouvidos, percebida por buddhi e refletida no som. Essa reflexão no som não é a reflexão do significado. É a reflexão da palavra. O significado não abandona a palavra. O significado é compreendido pela própria palavra. A palavra é eterna e reside dentro de nós.

Buddhi é nossa alma espiritual, nosso ser psíquico. Seu desenvolvimento marca o começo da espiritualidade. Multifuncional, engloba a compreensão, a inteligência, o discernimento e a intuição. Buddhi não incorpora o raciocínio, que é uma função da mente.
  

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3996 regras

São 3996 sutras, mais o primeiro aforisma da Mahâbhâsya, mais os 14 Shiva sutras.

Uma regra é breve na forma e precisa na função. São classificadas em gerais, particulares e residuais. Não existe exceção à regra nem brecha na lei. As regras são formuladas e organizadas segundo o contexto, a função, a força relativa e a relação interna.

A téssera da regra é sua aplicação. 


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A meta da gramática

A meta da gramática (vyâkarana) é analisar sistematicamente as sentenças (vâkya) da língua sânscrita clássica e védica através de suas regras. Esta análise é feita da seguinte maneira:

¿!  Identificação das palavras que compõem a sentença;
¿!  Submissão das palavras à análise segundo suas bases, afixos e operações relativas a estruturas.
  

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Sutra: a arte

A arte de apresentar qualquer assunto em forma condensada como aforismos consiste em separar o não essencial do essencial e apresentar somente a essência a mais interior. 


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Sons e fonemas d’água: u

O crocodilo é a montaria do mantra vam na Índia, confundindo-se com Makara, a montaria de Varuna. Símbolo lunar, o crocodilo é representado pelos maias com o signo u na cabeça. Deste u nascem os nenúfares e os brotos de milho. Era cantado pelos gês como o encanto das águas.


Sutra: o significado

O esforço para se reconhecer o “fio” oculto do raciocínio, sob ideias aparentemente desconexas, muito frequentemente fornece a chave para o significado de muitos sutras.

A necessidade de lutar com as palavras e as ideias e delas extrair seus significados ocultos assegura uma assimilação bastante completa do conhecimento e desenvolve, simultaneamente, os poderes e as faculdades da mente, em especial aquela capacidade de extrair da própria mente o conhecimento nele oculto.

Ao longo do tempo, é possível que tenham ocorrido alterações fundamentais no significado das palavras e nos padrões de pensamento. Este fato gera infinitas possibilidades de enganos e interpretações errôneas de alguns sutras.

Verificar as verdades básicas do que é exposto através das experiências pessoais ajuda a manter vivo o que está nos sutras e a preservar os significados das palavras. Divorciada de sua aplicação prática, a exposição tende a perder-se num emaranhado de palavras que perderam seu significado e sua relação com os fatos


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Fonemas e sílabas d’água: vam

Na escrita devanagari, com a letra va formamos o som vam, a semente verbal da água.

Uma semente caracteriza-se por ser constituída em camadas. As externas protegem, as internas guardam o que é real e essencial. Qualquer objeto apresenta diversas camadas de significado.

Outra característica da semente é que ela germina no solo.

As palavras e o que elas representam apresentam sementes sonoras e germinam em versos. Os nossos versos são de cansaço, água e descanso.


Sutra: as palavras

As palavras que compõem um sutra exprimem conceitos filosóficos definidos. Sem um conhecimento do que nelas se encontra implícito, não é possível apreciar o significado de um sutra. Somente com a ajuda de tais palavras, que expressam todo um conjunto de ideias, plenas de profundos significados, é que um sutra pode ser elaborado.
  

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Fonemas d’água: vr

Vr é a raiz de Varuna, o senhor das águas. A raiz significa cobrir. Remete ao que está oculto, aos invólucros e envoltórios. O que está escondido também está protegido, guardado. A palavra cobrir cobre a palavra pario. As camadas são cobrir > cooperire > co + operire > operire = ob + pario. Pario significa parir, dar à luz, pôr, gerar.

Os versos de Varuna são as cordas que ele traz na mão. Elas simbolizam o seu poder de ligar e desligar, prender e libertar. Nos manuscritos maias, a chuva é simbolizada por cordas. Il tombe des cordes (caem cordas) é uma expressão francesa para indicar que chove muito.

Os versos do senhor das águas Faro são colares. Com o colar de ouro, ele ouve as palavras secretas e poderosas dos homens. Com o colar de cobre, ele ouve as de uso corrente.

Os colares de Faro e as cordas de Varuna são os nossos versos d’água.


Sutra: o método

Sutra é um método clássico para a exposição de temas importantes. Foi adotado pelos sábios e letrados antigos.

Exposição clara de todos os aspectos essenciais e continuidade do tema fundamental, apesar da aparente descontinuidade das ideias apresentadas, são as características mais importantes desse método.

Este método de exposição prevaleceu numa época em que a imprensa era desconhecida e em que o estudante tinha de memorizar a maioria dos mais importantes tratados. Daí a necessidade de condensar ao máximo a escrita.

Nada do essencial era deixado de fora. Aquilo com que o estudante estava familiarizado era cortado impiedosamente. O mesmo acontecia com o que ele pudesse inferir do contexto.

No método sutra, a essência do conhecimento requerido tem que ser extraída, convenientemente preparada, analisada e assimilada, antes que o assunto possa ser completa e integralmente compreendido


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As expressões latinas da água

Discurso, tempo, guerra, desterro são as nossas correntezas. O que perdemos, o que não podemos prever, o que podemos ser – escravos, livres – está escrito nas águas.


¿!  Aquam servam bibere: ser escravo (Ovidius);
¿! Aquam liberam: ser livre (Petronius Arbiter);
¿!  Post aquam: depois do batismo (Tertullianus);
¿!  Ah! addspersisti aquam: ah! tu me fizeste voltar a mim (Plautus);
¿!  In aqua scribere aliquid: escrever na água alguma coisa (Catullus));
¿!  Aqua et igni interdicere alicui: vedar a alguém a água e o fogo/ desterrá-lo (Cicero);
¿!  Aquam terram que petere: declarar guerra (Titus Livius);
¿!  Aquam dare aliqui: marcar o tempo a alguém (Plinius);
¿!  Aqua perdere: perder tempo (Quintilianus);
¿! Aquam a pumice postulace: pedir água à pedra-pome/ pedir a quem não pode dar (Plautus);
¿!  Hoeret aqua: para a água/ gaguejar ou perder-se do discurso o orador (Cicero).


Tudo passa.


Sutra: o fio

A palavra sutram, em sânscrito, significa um fio. Este significado primário deu origem ao secundário. Sutram também significa um aforismo. Em Nossos Estudos Poéticos significa também um link.

Um fio une uma quantidade de contas num rosário. A subjacente continuidade de uma ideia une os aspectos essenciais de um tema. 


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The Astâdhyâhî of Pânini - tésseras e tesselas

Estudando o mosaico linguístico de Pânini através do estudo de Rama Nath Sharma e com a ajuda dos estudos de I. K. Taimni, supomos que regras (sutras) e comentários compõem uma téssera na literatura gramatical. Dentre os comentários, temos as seguintes tesselas:

¿!  explicações (vrtti)
¿!  notas complementares (vârttika)
¿!  exposições (bhâsya)
¿!  derivações ou exemplos (prakyiyâ)
¿!  teoria (siddhânta)

Em Nossos Estudos Poéticos, destacamos a tessela teoria, que consiste em ideias de metafísica, filosofia, epistemologia, lógica e ritual.

Astaka, oitavas ou a coleção de oito, e Sûtrapâtha, a recitação das regras, são outros nomes pelos quais conhecemos a gramática Astadhyâyî (asta – oito/ adhyaya – lição). 


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Os três sábios da gramática

Pânini, Katyâyana e Patañjali são os três sábios da gramática.

Patañjali tem a sabedoria da exposição. Katyâyana, a da complementação. Pânini tem a sabedoria coletiva. Foi ele quem recolheu as regras da melhor gramática já escrita para qualquer língua.

Nenhum deles é o criador da gramática. A literatura gramatical não é criada por nenhum sábio. Suas regras são reunidas e comentadas.


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Descrição ou discrição

“Qualquer descrição desse mundo só pode ser vaga, indireta, simbólica ou expressa por meio de negativas”, é o que nos diz Taimni. Consultando o dicionário Aurélio, encontramos que descrição é a exposição circunstanciada feita pela palavra escrita ou falada. Ampliando seu significado, podemos ainda dizer que descrever é contar minuciosamente, fazer uma enumeração ou relação. O problema é que, enquanto presos a nomes e formas, não podemos conhecer as coisas como elas realmente são. Daí a dificuldade de descrever o universo em que vivemos.

Fazer uma descrição cheia de predicativos a partir do conhecimento de inúmeros fatos ou minúcias de um determinado tipo torna-se inútil se não conhecemos a relação fundamental entre os fatos, se não conhecemos sua natureza ou qualidades essenciais

Enquanto vivermos no reino dos nomes e das formas, não haverá razão para não aproveitarmos as respostas que nomes e formas nos tragam. No entanto, há de se desenvolver a discrição para alcançarmos a real descrição do mundo. Discrição aqui no sentido de discernimentoa qualidade de quem sabe guardar segredo.


Terceiro turno – os personagens

A literatura eleitoral, ao apresentar a fala do personagem Candidato, apresenta também a fala do personagem Eleitor. É um monólogo no qual o Candidato fala o que o Eleitor quer ouvir – que se trata de um diálogo entre o Candidato e o Eleitor. Em seu discurso, o Candidato apresenta os valores, os critérios de avaliação, os medos, os desejos, as fantasias e as carências do Eleitor: compromisso, competência, coragem, honestidade, o bem comum, respeito à justiça social, à solidariedade humana e à diversidade sexual, meritocracia, parceria, qualidade de vida, integração, sustentabilidade, acessibilidade, mobilidade e fim da impunidade. 

O Candidato quer esquecer o passado. O Eleitor tem medo do velho e deseja o que é novo, de preferência no plural. O Candidato mostra a necessidade da elaboração de novas leis e do investimento em novas tecnologias. A fim de que o Brasil seja para sempre o País do Futuro, Candidato e Eleitor fantasiam viver na Terra do Nunca. Candidato e Eleitor formam uma téssera cuja senha é o voto.


Terceiro turno – a narrativa


As campanhas eleitorais nos proporcionam uma literatura típica – a da propaganda política. Este gênero apresentou-se como um misto de biografia/ curriculum vitae, no qual os candidatos contavam as suas narrativas. Começavam pelo começo: lugar e família de nascimento. Depois, passavam aos tópicos da vida profissional (formação, profissão e carreira). Muitos começaram a trabalhar com os pais, dado que comprova o mito da hereditariedade no Brasil, onde se herdam dons, talentos, cargos, capitanias. Está no sangue. Enfim, chega-se à vida política do candidato. O perfil é o do trabalhador ágil, dinâmico, apaixonado, firme, empreendedor, eficiente, que faz o quê? A diferença. 

Ele tem um desafio, ele tem uma missão, ele luta pela libertação das vítimas das modernas formas de escravidão (as drogas e a exploração da prostituição), pela liberdade religiosa, pela defesa da educação, da cultura, do patrimônio, do meio ambiente, pela valorização da dança, do teatro, da música, das artes plásticas, do circo. Ele luta não em grandes combates, mas em grandes debates.


Terceiro turno – o pronome indefinido



O tempo futuro parece encontrar no Brasil a sua correspondência no espaço. Afinal, somos O País do Futuro. O espaço tão bem descrito na Canção do Exílio de Gonçalves Dias: “Nosso céu tem mais estrelas,/ Nossas várzeas têm mais flores,/ Nossos bosques têm mais vida,/ Nossa vida mais amores”. No país gigante, uma palavra muito empregada pelos políticos é a palavra maismais vagas, mais ciclovias,  mais participação dos cidadãos nas decisões políticas, mais habitação social, mais planejamento metropolitano, mais esporte, mais fiscalização, mais prioridade, mais foco, mais investimento, mais aumento, mais ampliação, mais expansão, mais otimização... mais mais.



Terceiro turno – o tempo verbal e o prefixo

O tempo da política brasileira parece ser mesmo o futuro – do presente, do pretérito e do subjuntivo. Foi o que pudemos perceber na leitura dos panfletos dos candidatos a deputado, governador e presidente deste ano.

O futuro nas suas mãos, mudança, avanços e progresso são algumas das expressões eleitas pelos redatores de panfletos, folders, revistas, cartazes, santinhos... As antigas promessas ganharam a forma de projetos. E os eleitores perguntaram: cadê as propostas?