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As expressões da água (em língua portuguesa)

Todas as coisas são iguais? As que são claras como água são como as que mudam da água para o vinho? E essas são como as que dão água na boca? As coisas que acontecem até debaixo d’água são as mesmas que vão por água abaixo?

¿!  Água deu, água o levou: dizemos sobre algo que ganhamos e perdemos facilmente;
¿!  Fazer água: começamos uma tarefa e nos perdemos em sua execução;
¿!  Sem dizer, água vai: de repente;
¿!  Passar muita água debaixo da ponte: transcorrer muito tempo;
¿!  Sujar a água que bebe: ser ingrato.

Que palavra, que símbolo? Que substância é essa? Ou seria que elemento? O que é a água para dar vida a tantas expressões linguísticas?


Quem somos nós: as qualidades

Pensando de modo persistente em qualquer qualidade, esta tende a tornar-se cada vez mais parte do nosso caráter. Esse efeito é intensificado se nosso pensamento for mais que um pensamento. Se ele for uma contemplação. É possível até que nossa mente torne-se uma com a qualidade.

Qualidades positivas, tais como a coragem e a compaixão, não são algo nebuloso e vago. São princíos reais, vivos, dinâmicos, de ilimitado poder. No entanto, não podem se manifestar plenamente nos mundos inferiores por falta de instrumentos adequados. É então que damos vida às qualidades negativas. O medo e a crueldade não têm existência própria, mas são a não manifestação ou a manifestação imperfeita das qualidades positivas.

No universo literário, alguns personagens tornam-se a própria corporificação de algumas qualidades. Eles personificam os poderes de amor, simpatia, paciência.

No universo não literário, as qualidades positivas podem ser adquiridas, expressas e corporificadas por nós. Isso acontece quando nos dedicamos à arte da criação de nós mesmos. Quando abandonamos as máscaras do dia a dia e descobrimos quem somos nós através da qualidade essencial de que somos a corporificação e que nos distingue uns dos outros.


Calçadas musicais



A onda que invade todos os verões é o Carnaval. Uma onda de ansiedade atinge as pessoas nos dias que antecedem o feriado. E os blocos são uma longa série de ondas de euforia a tomar conta das ruas.

Aproveitamos, então, para falar de uma rua muito especial do carnavalesco bairro de Vila Isabel: o Boulevard 28 de setembro. A rua recebeu esse nome por ser a data em que a princesa Isabel assinou a lei do ventre livre, tornando livres filhos de escravos nascidos a partir daquele dia. O mosaico acima é parte das calçadas do Boulevard. Durante o carnaval, um colorido mosaico se sobrepõe ao preto e branco dessas ondas musicais – são os confetes dos foliões que por ali desfilam.

Em comemoração aos 400 anos da cidade do Rio de Janeiro, o arquiteto Orlando Magdalena idealizou a obra – as Calçadas Musicais. Nelas encontramos partituras e cifras de importantes canções da música popular brasileira. Foi o músico Almirante, morador da Vila, quem selecionou o repertório a ser tesselado. O maestro Carioca simplificou as partituras. O projeto decorativo ficou por conta do arquiteto Hugo Ribeiro. E os anônimos calceteiros concretizaram a ideia com as conhecidas pedras portuguesas.

Símbolos do bairro, as Calçadas Musicais tesselam as seguintes canções:

¿!  Cidade Maravilhosa - André Filho (na Praça Maracanã)
¿!  Jura - Sinhô
¿!  Renascer das cinzas - Martinho da Vila (na Praça Barão de Drummond)

Vila Isabel é o berço dos compositores Noel Rosa, João de Barro e Martinho da Vila e é também o berço da escola de samba Unidos de Vila Isabel. Em 1988, ano da promulgação da nossa atual constituição, a escola foi campeã do carnaval com o enredo Kizomba – Festa da Raça. O enredo foi idealizado por Martinho da Vila, tendo Rodolpho de Souza, Jonas e Luiz Carlos da Vila como compositores do samba-enredo. “Anastácia não se deixou escravizar”, “O pagode é o partido popular” e “Esta kizomba é nossa constituição” são partes da letra do samba.

Os versos de outros carnavais são cantarolados nos blocos de rua ainda hoje. Uma onda de nostalgia também invade a festa das raças. 


Fonte da imagem: Rio eu te amo


Mestres calceteiros


Mar largo - estrutura geométrica do calçamento em ondas (croqui José Tabacow)


A arte pública do mosaico de pedras portuguesas, formado pela justaposição de pedras de formato irregular, é uma tradição dos países lusófonos derivada possivelmente do mosaico romano. Os pavimentos calcetados de pedras de calcário branco e preto datam de 1500 e foram muito empregados no paisagismo de meados do século XIX. Uma das técnicas utilizadas na elaboração desse mosaico é o mar largo. Um exemplo é o calçadão de Copacabana, projetado no início do século XX por Burle Marx, Haruyoshi Ono e José Tabacow.

Hoje muitos desses mosaicos vêm sendo substituídos por cimento. A justificativa para a destruição dos mosaicos é politicamente correta – falta de acessibilidade para deficientes físicos, piso escorregadio para idosos. Já outros mosaicos vêm sendo substituídos por asfalto. A justificativa é a mobilidade urbana – pistas mais largas para carros e abertura de ciclovias. Tudo se encaixa. Mas não sabemos para onde vão as pedras retiradas.

Dizem os anônimos mestres calceteiros, no entanto, que a destruição do mosaico se deve à incompetência de nossa época: aplicação em locais indevidos, situados em áreas inclinadas, reparos realizados por mão-de-obra não qualificada, buracos por causa do mau encaixe das pedras. Cimento e asfalto são as vantagens do imediatismo e do simplismo e do baixo custo.

A lição que podemos aprender com os mestres calceteiros é a seguinte: a arte identifica sua época e seu espaço até mesmo quando abandonada, desprezada e destruída. E reflete as qualidades que desenvolvemos. A calcetaria só é bela e segura quando bem feita.

Todos os anos, milhões de pessoas se reúnem no mar largo de Copacabana para celebrar a chegada do ano novo. Jogam flores no mar, acendem velas, abrem garrafas de espumante, brindam, fazem pedidos, votos e promessas. Celebremos, então, o nosso tempo e o nosso espaço, refletindo sobre as qualidades que vamos desenvolver ao longo de 2015. As qualidades que vão nos identificar.

Fonte da imagem: Vitruvius


Estudar poesia

Para aprender poesia, podemos estudar sobre os sentimentos, que são as sensações percebidas pela mente como agradáveis ou desagradáveis. Podemos estudar sobre as emoções, estados complexos de consciência constituídos por desejo e pensamento.

Podemos estudar sobre o pensamento, o estabelecimento de relações entre as imagens presentes em nossa mente. Essas imagens são as nossas percepções mentais. Delas dependem a qualidade do nosso pensamento. Importam tanto o número quanto a natureza das imagens, adquiridas por meios como a observação e a leitura. Ao pensar, usamos essas imagens, ou então usamos símbolos que as substituem.

O químico Taimni  nos diz através de seus livros que o bom pensamento precisa de um artista que arranje essas imagens de tal maneira que nosso pensamento ganhe uma bela forma. “O simples aumento de nosso conhecimento pela leitura e observação e a multiplicação de nossas imagens mentais que daí decorre não é o bastante. Devemos pensar com firmeza e persistência até que aprendamos a produzir, usando o material que acumulamos, pensamentos de belas formas ou pensamentos que possam ser de utilidade em nossa vida”. Em Nossos Estudos Poéticos, nossa vida se confunde com nossa poesia. E seguimos tentando dar a forma de um belo mosaico a este blogue.

E, para aprender a poesia, podemos estudar sobre o desejo – como transformá-lo em vontade? Como fazer da aspiração uma inspiração? Como, para além de uma bela forma, alcançar o sublime?


O cansaço e a moenda

Moídos, triturados todos os nossos corpos, todos os nossos corpos granulados reduzidos a pó. Vencidos pelo cansaço, desistimos.


O cansaço e o desgaste

Gastos, enfraquecidos, curtidos, diminuímos, humilhamo-nos, perdemo-nos com o atrito da vida e do tempo que só passam. Menores, diminutos, mínimos, micros.


O cansaço e o esvaziamento

Esvaziadosisolamo-nos no que falta, um grande ruído soa desmedido muito ao longe.


O cansaço e o fastio

Fartos, provamos os dissabores, os desgostos, os enjoos. Desdenhamos, desprezamos. Encontramos o que não é o desejo, o que não é a vontade. Não queremos mais. Não mais buscamos. Enfim, encontramos.


O cansaço e o enfado

Enfadados, existimos aturando, resistimos até não mais tolerar a fadiga das sortes, das fortunas, dos sucessos, dos destinos.


O cansaço e o aborrecimento

Aborrecidos, afastamo-nos com horror. A cada opinião diferente, divergimos. Fugimos e evitamos. Vamos nos distanciando. Frios agudos e sons estridentes estremecem as sombras.


O cansaço e o hábito

Habituados, nos acostumamos. Habituados, nos adaptamos. Acostumados, nos desinteressamos. Boiamos adaptados na correnteza dos pensamentos, das palavras e das ações que compõem o vórtice da rotina. Ou do vício.


Aves calcificadas


A Pedra

Dorme que nem pedra.
Os homens são pedras
         enquanto dormem.

Descansam ao som das ondas
e à sombra das gaivotas
         enquanto dormem.

Homem! Cinge tuas asas
         enquanto a Pedra dorme.


Foto: Nick Brandt. Fonte: New Scientist.

 
Este é o Lago Natron, no norte da Tanzânia.

Este é o lago de nome Natrão –  um mineral composto por carbonato de sódio hidratado, uma das substâncias utilizadas pelos antigos egípcios nos processos de mumificação, quando as múmias ficavam imersas num composto de carbonato de sódio, bicarbonato de sódio, cloreto de sódio e sulfato de sódio.

No lago Natron, as temperaturas podem chegar a 60°C.
No lago Natron, a alcalinidade é entre pH 9 e pH 10,5.
No lago Natron, acumulam-se as cinzas vulcânicas do Grande Vale do Rift.

No lago Natron, as aves se iludem com a reflexão na superfície do espelho d´água.
No lago Natron, as aves, como Narciso, mergulham em si.
No lago Natron, as aves, ao se secarem, morrem calcificadas.


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Arabescos poéticos

A vida é uma repetição. O movimento que repetimos é o de retorno (não o de revolta). A ordem da vida está naquilo que nela se repete, naquilo que está se repetindo exatamente neste instante e em seu próprio ritmo.

(...em aniversários, se a vida for uma festa; em doses, se a vida for uma bebedeira. Em salários, se a vida for um trabalho; em notas, se a vida for uma prova. Em horas, se a vida for um relógio; em estações, se a vida for um ciclo. Em fases, se a vida for um jogo; em posts, se a vida for um blogue. Em tesselas, se a vida for um mosaico; em estâncias, se a vida for um labirinto. Em mandalas, se a vida for um livro; em flores, se a vida for uma prece. Em linhas, se a vida for um arabesco; em sílabas poéticas, se a vida for uma única linha – um verso...)

A ordem da vida está naquilo que só podemos acompanhar se conseguirmos descobrir-lhe a medida.

A vida é uma recitação. O movimento que recitamos é uma respiração, é um batimento cardíaco. Mais uns pensamentos e uns sentimentos que sempre temos e umas palavras que sempre usamos.

A vida é uma recitação. O movimento que se recita é o Verbo Ser. O verbo que liga, o verbo que cria.

Que aquilo que recitamos e repetimos ordene nossas vidas. Que aquilo que recitamos e repetimos em nossas vidas possa de novo nos trazer paz infinita. Que retornemos à paz infinita com o que recitamos e repetimos em nossas vidas.

E que possamos criar belos arabescos com os fios de nossas vidas.


Arabesco        Arabescos


Visões de arabesco

O Ser é um arabesco.

O link é um arabesco.

O verso é um arabesco.


Arabesco e flor        Arabesco

  

Arabesco e flor: palavra e símbolo


A palavra arabesco designa um ornato de origem árabe, no qual se entrelaçam linhas, ramagens, grinaldas, flores... É também, de acordo com o Dicionário Aurélio, o mesmo que rabisco.

Encontramos ainda a palavra arabesco no verbete ornamento do Dicionário Analógico ao lado de termos como florear, enflorar, embelezar, iluminar, conchear, enriquecer e constelar.

O símbolo do arabesco nos inspira a dizer que o arabesco não é uma figuração: é um ritmo. O arabesco é uma encantação, uma repetição indefinida do tema, uma transcrição da recitação mental. Quando se torna um apoio da contemplação, permite que se escape à condição temporal.

Podemos discernir nos arabescos:
¿  Dois elementos constantes – a interpretação da flora e a utilização ideal da linha.
¿  Dois princípios – a aparente fantasia e a estrita geometria.
¿  Dois procedimentos – o traço reto como um jato e o laço.

Os arabescos epigráficos combinam grafia e sonoridade. Eles oferecem-se como um enigma a ser decifrado, como um labirinto. O artista que faz os arabescos busca ocultar e revelar ao mesmo tempo uma sentença corânica e, assim, despertar simultaneamente a emoção de uma beleza e de uma verdade, que seriam acima de tudo um compromisso com o longínquo.

É por tudo isso que, buscando no Dicionário de Símbolos, encontramos que o arabesco é o símbolo do símbolo: revela velando e oculta desvelando.

Mas não podemos fechar nosso dicionário sem uma rápida consulta à simbologia da flor. A floração é o retorno ao centro. A flor mostrada por Buda a Mahakashyapa substituía qualquer palavra – a própria expressão do inexprimível. Na civilização asteca, a flor coroava o hieróglifo da prece. As flores manifestavam a diversidade do universo e expressavam fases específicas das relações entre deuses e homens. A flor era a medida dessas relações.

E fechando o Aurélio, encontramos a seguinte etimologia para ornar: ornare – pôr em ordem.




Recitando Arabescos


 O que é pra ser – são as palavras!

João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

¿!

Fragilidade

Este verso, apenas um arabesco
em torno do elemento essencial – inatingível.
[...] não mais
que um arabesco, apenas um arabesco
abraça as coisas, sem reduzi-las.

Carlos Drummond de Andrade, em A Rosa do Povo

¿!

Onze

Mas a flor está subindo, próxima,
Cheia de sutis arabescos.

Cecília Meireles, em Doze Noturnos da Holanda




Maiúscula Copperplate


Pela primeira vez, todas as letras de uma palavra estavam ligadas. Essa foi a inovação trazida pela Maiúscula Copperplate de acordo com David Harris em A arte da Caligrafia. A Copperplate é provavelmente a mais cursiva de todas as caligrafias do abecedário latino. A maior parte das letras pode ser construída com um único traço. Estudemos as lições poéticas para que consigamos escrever com essa bela grafia:

¿  Ligar as letras sempre que possível fazendo com que a ligação até a haste seja a mais alta possível.
¿  Não juntar letras perto de suas bases.
¿  Tentar deixar um nítido triângulo de espaço entre as letras.
¿  Todos os laços devem relacionar-se proporcionalmente.

Na Copperplate, os laços normalmente acabam com uma espiral em fio e a haste da Maiúscula normalmente termina com um botão.




O verbo ser


O verbo ser é um verbo de ligação. Sua missão gramatical é ligar. O vínculo estabelecido pelo verbo ser exprime um aspecto sob o qual se considera a qualidade atribuída ao sujeito. Esse aspecto é o da permanência.

O radical do verbo ser sofre alterações que o tornam inclassificável se considerarmos os critérios de regularidade e irregularidade. O verbo ser não é nem regular nem irregular. Na sua conjugação, há dois radicais diferentes – os verbos latinos sedere e esse. Por isso, dizemos que o verbo ser é anômalo.

Somos conduzidos aos conceitos acima quando buscamos o verbo ser pelas gramáticas de Bechara e Cegalla. Uma busca pelo verbo ser no Dicionário Latino-Português nos conduz aos seguintes verbetes e palavras:

¿  Esse – presente infinitivo de Sum e Edo.
¿ Sum, esse – ser, existir, viver, durar; estar; ir, vir; acontecer, suceder; ser descendente, oriundo; valer, custar; pertencer a, favorecer; ser para, servir de, causar; bastar para.
¿  Edo (edere)pôr fora, dar à luz, publicar em obra; mostrar; causar, cumprir, entoar; dizer, revelar, anunciar; nomear, eleger, escolher; elevar.
¿ Sedereassentar-se; estar sentado (como autoridade); não sair do seu lugar; estar postado; ficar imóvel, parar; ficar, permanecer, estabelecer-se, fixar-se, estar decidido; afundar-se, entrar, penetrar; descer, pousar; acalmar-se, sossegar-se; estar à flor da terra, estar em planície; abater-se, abaixar-se, deprimir-se; montar a cavalo.

A ação do verbo ser é realizar uma ligação que seja permanente.